Declarações do delegado Estéfano Santos, ações judiciais e discursos de Clécio e Furlan colocam crime organizado no centro da disputa pelo Governo do Estado

O enfrentamento às facções criminosas deixou de ocupar apenas as páginas policiais e entrou definitivamente no centro do debate político do Amapá nesta reta final de campanha.
Nos últimos dias, declarações de autoridades da segurança pública, vídeos nas redes sociais e sucessivas ações no Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) transformaram o tema em um dos principais pontos de confronto entre o governador e candidato à reeleição Clécio Luís e seu adversário Antônio Furlan.
No centro de parte dessa controvérsia está o delegado Estéfano da Silva Santos, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), unidade responsável por algumas das principais investigações contra organizações criminosas no estado.
Estéfano: Draco não aponta ligação de Furlan com facções
A polêmica ganhou força depois da repercussão de uma reportagem nacional da Record sobre supostas relações entre política e crime organizado no Amapá.
Estéfano havia concedido entrevista para tratar da atuação das organizações criminosas e das rotas do tráfico no estado. Posteriormente, o delegado gravou um vídeo para esclarecer sua participação na reportagem.
“As investigações da nossa divisão não apontam qualquer indício que relaciona o candidato Dr. Furlan a facções criminosas”, declarou Estéfano.
O delegado também afirmou que sua participação original tratava tecnicamente do crime organizado e contestou o uso de sua imagem em contexto político-eleitoral.
A manifestação provocou forte repercussão dentro da própria Polícia Civil. Um grupo de 41 delegados divulgou carta de apoio a Estéfano, sustentando que sua entrevista original tinha caráter institucional e tratava das rotas do tráfico e do combate às organizações criminosas.
A Adepol-AP, por outro lado, criticou a vinculação pública de delegados a candidaturas e afirmou que a instituição policial não deveria ser utilizada politicamente.
Coligação de Clécio foi ao TRE contra vídeo
A repercussão chegou à Justiça Eleitoral.
A coligação Juntos por Todo o Amapá, do governador Clécio Luís, ingressou com representação questionando a divulgação do vídeo de Estéfano pela campanha de Furlan.
A coligação sustentou que a utilização da imagem e da autoridade institucional do titular da Draco em conteúdo eleitoral poderia configurar abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
O TRE-AP, entretanto, negou o pedido de retirada imediata do vídeo.
Na decisão, o desembargador Agostino Silvério Junior afirmou que, naquele estágio do processo, não havia elementos suficientes para concluir pela existência de utilização abusiva da função pública ou da estrutura estatal em benefício eleitoral. O mérito do processo ainda poderá ser analisado após o contraditório.
Clécio também leva discurso contra facções à campanha
Do outro lado da disputa, Clécio passou a colocar o combate ao crime organizado no centro de suas manifestações públicas.
Durante entrevista à TV Equinócio, o governador afirmou que, ao contrário de seus adversários, não negocia com criminosos e disse não nomear pessoas ligadas a facções para cargos de confiança.
Clécio também mencionou notícia segundo a qual pelo menos 12 pessoas apontadas como ligadas a facções teriam sido nomeadas para cargos na Prefeitura de Macapá.
Furlan reagiu e ingressou no TRE pedindo direito de resposta e a retirada do conteúdo, alegando que, mesmo sem ser citado nominalmente, as declarações o associariam ao crime organizado.
Neste sábado (19), a Justiça Eleitoral negou a retirada urgente do vídeo de Clécio. O desembargador Rommel Araújo entendeu preliminarmente que as declarações faziam referência genérica aos “adversários”, sem identificar especificamente Furlan.
A decisão não analisou se são verdadeiras as afirmações sobre os supostos integrantes de facções nem encerrou o processo de direito de resposta.
Segurança vira campo de disputa eleitoral
A sequência de episódios mostra como o crime organizado passou a ocupar espaço central na campanha estadual.
De um lado, Clécio apresenta o enfrentamento às facções como uma das bandeiras de sua gestão e reforça publicamente sua identificação com as forças policiais.
Do outro, Furlan contesta qualquer tentativa de associá-lo ao crime organizado e passou a utilizar justamente a manifestação do titular da Draco — unidade especializada no combate às facções — como elemento de sua defesa.
No meio desse confronto estão integrantes da própria Polícia Civil, com manifestações divergentes sobre os limites entre posicionamentos individuais de policiais e a participação institucional da corporação no ambiente eleitoral.
O secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Cézar Vieira, também entrou no debate. Ele defendeu que crime organizado deve ser tratado como questão policial, e não política, e afirmou que investigações precisam produzir elementos técnicos capazes de subsidiar a atuação do Ministério Público e da Justiça.
Enquanto a discussão política aumenta, a Draco continua realizando operações contra a estrutura financeira das organizações criminosas. Nesta semana, a unidade comandada por Estéfano participou da operação que resultou na apreensão de cerca de R$ 2 milhões em espécie e no bloqueio de outros R$ 3 milhões, em investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao tráfico.
A menos de três semanas do primeiro turno, facções, segurança pública e crime organizado passaram a dividir espaço com os temas tradicionais da campanha e chegaram de vez ao centro da disputa pelo Governo do Amapá.





